E aí gentee??
Quando eu fiquei sabendo do blog dos meus amigos Thiago e Rafael, já fui pedir pra participar. E aqui estou eu, um tanto "intrusa". No fundo, no fundo, acho que eu devo ser bem cara-de-pau.
Quando eu era menor, não gostava de escrever. Quando a professora pedia uma narrativa, era o fim do mundo. Mas duns tempos pra cá peguei gosto em ecrever crônicas. Algumas são engraçadas, algumas tristes, algumas imaginadas, outras aconteceram comigo, outras são inventadas. Mas todas contam das coisas que acontecem todo dia no calçadão, na rua, na escola, o ônibus ou no caminho pra casa, que nem essa curtinha aí.
"No quintal da frente da casa pequena dela havia muitas flores, daquelas que só casa de avó tem. Dá uma impressão que tem felicidade ali. As flores são cor, e cor pode ou não significar felicidade. Tinha também uma árvore, sem flores e sem frutos, mas que era bonita mesmo assim. Nela estavam penduradas duas sacolas: uma azul e uma rosa. Talvez tivesse lixo ali, talvez uns galhos. Só Deus sabe. E pra ser bem sincera, eu também queria saber.
O piso da garagem era alaranjado, daqueles quadrados que tem juntas muito grossas. Quem já levou um tombo nesse tipo de piso quando era criança não esquece mais. Tipo eu. Mas parece que os adultos amam esse piso. Talvez seja bonito e só eu não perceba. Ou melhor: talvez seja barato.
Eu passava de ônibus na frente da casa dela todo dia, e ficava observando através da garagem o muro baixinho do quintal que permitia a vista da rua de baixo. A casa era amarelinha, uma cor muito feia na minha opinião. É que eu sempre morei em casa amarelinha. Quando constatei que as casas pra onde minha família mudava eram inevitavelmente amarelinhas, comecei a ter bronca da cor. É uma grande falta de criatividade. Se você não sabe que cor pintar, vai de amarelinho. Se a casa for pra alugar, sei lá, experimenta pintar de amarelinho. Talvez dê certo. Mas pra mim, era a única coisa na casa que era uma droga. O portão era cinza, de varetas fininhas de metal cinza enferrujado. Devia fazer barulho quando abria. Mas nem assim era anti-ladrão, dava pra pular facilmente, já que era baixinho que nem o muro.
Eu nunca reparei o que tinha do lado de dentro, nem espiei pela janela pra tentar ver o caráter da mobília. Nunca me fez muito sentido me preocupar com isso, só agora, enquanto estou na frente do computador, digitando essa história. Acho que talvez esse lance signifique que o quintal acaba sendo mais significativo pra quem passa de ônibus. Quem sabe pela contradição de estar trancafiado num local cheio de gente suada e olhar pra um lugar aberto.
Então naquele dia eu voltava pra casa de tarde numa quinta-feira. Eu não tinha um horário fixo, por isso nem lembro direito que horas era. E eu a vi: a mulher que morava naquela casa. Era meio alta, magrinha e usava um vestido floridinho de malha. Devia ter a idade da minha mãe. Ou mais. Ela estava passando a corrente e o cadeado no portão. Parecia que estava prestes a ter uma crise de choro. Os pés-de-galinha (aquelas rugas em volta do olho, sabe?) estavam todos à mostra, de tanto que ela contraía o rosto. A boca tremia, que nem as suas mãos, que tentavam passar a corrente no portão. Enquanto o ônibus estava parado no ponto e alguém descia, ela dava três voltas, ao invés de procurar um bom pedreiro que aumentasse aquele raio de muro. Na última volta, parecia que já estava começando a soluçar e soltou a corrente, perdendo metade do serviço.
Por que será que ela chorava? Será que ela já foi assaltada e relembrava? Ou será que seu amante foi embora? Será que o marido saiu sem avisar? Será que ela brigou com a filha? O fato era que: ela não queria que alguém entrasse ali. Talvez nem mesmo para pedir uma muda das flores.
Entre tanto nervosismo ela olhou para frente, e me viu observando-a da janela do último lugar do ônibus, onde eu estava. Desta vez ela deixou cair o cadeado. "
Curtas
Médicos confirmam: cordas vocais podem dar um nó na garganta.
domingo, 5 de abril de 2009
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